segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Nunca te encontrei em nenhum verso



Não há no mundo inteiro poesia suficiente para falar de ti
por isso nunca te encontrei em nenhum verso

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Elixir


Não consigo dizer-te a palavra certa
nem descrever o sabor e aroma
do mágico elixir que me acordou
do sono eterno

não consigo
porque me escorre o teu amor pela garganta
alagando os suspiros
que dão mote às palavras

Não consigo dizer-te a palavra certa
porque me corres por dentro
como rio de caudal imenso
como rio
que aplacou no porto do meu peito


não consigo a palavra certa

Semente nua



Hoje sinto-me semente nua com vontade de apodrecer, para poder depois  germinar no principio de todas as coisas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vives tantas vezes na raiz das minhas lágrimas


Por vezes vives na raiz das minhas lágrimas. Vives no sítio onde me nascem rios salgados que de tão aprisionados pelas margens sabem-se sem esperança de alcançar os sete mares. Sobes-me ou desces-me as colinas e danças-me inevitavelmente na retina. Inevitável e lento, trémulo e periclitante na lágrima retida; trémula, ali, a lágrima por cair, ali de onde o mundo se reflete pardo e desfocado. Vês como eu, o mundo desfocado e pardo, num porvir absurdo que nos falece antes que seja. Por vezes fazes pequenas ondas no lago dos meus olhos e tremulas ao vento a bandeira da revolta: queres que eu seja tempestade, que tudo apague, que tudo lave, que tudo; mas a lágrima, mareada e sombria, grita e força a grade para rolar livremente pela face. Evito a queda, porque não quero que roles com ela até ao chão e te sujes no sangue que escorre dos meus pés. As caminhadas foram sempre longas e os caminhos pródigos em gumes. Soubesse eu que as lágrimas corriam só em direção à boca, soubesse eu que as lágrimas em que me habitas corriam sempre em direção à boca; soubesse eu e soltava-as nessa liberdade de sal aquoso; deixava-te entrar de novo em mim. E de novo, de novo, sempre de novo, deixava que voltasses a ser líquido, quente e terno, recolhido, na raiz das minhas lágrimas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Antes e depois de ti: nada.


O teu beijo apagou-me a memória de todos os beijos
A tua mão apagou-me o toque de todas as mãos

as tuas palavras apagaram de mim a memória das outras palavras

o teu corpo apagou de mim a memória de todos os corpos
do mundo

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A asa do meu sonho


Da tua alma vê-se a asa do meu sonho.

Parece haver uma janela no centro do meu peito por onde espreitas e me desvendas, por onde espreitas e traduzes o momento meio tímido que antecede a vontade de beijar, por onde espreitas e deslizas o pensamento até me decifrares, esteja eu onde estiver.

Estendes-me a passadeira vermelha das palavras, e eu toda ouvidos, toda sentidos, avanço mais ou menos decidida a discursar metáforas puras, de água fresca e cristalina, na nascente do teu pensamento. Estendes uma passadeira vermelha de palavras, sobre a madrugada; vou até ti e paramos à entrada da cidade desabitada e encantada de silêncios; ali ficamos de mãos dadas no portão. Ficamos ali simplesmente, horas e horas sem fim. Horas sem fim a ver crescer as heras que protegem as paredes e abrigam o desabrochar tardio das margaridas. Ficamos ali, a ver, folha a folha o desabrochar tardio das margaridas.

Da tua alma vê-se a asa do meu sonho e a outra asa anda a voar à toa sobre o cume da saudade.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A primeira vez que te escrevi foi com o olhar


A primeira vez que te escrevi um poema foi com o olhar, um olhar no meio de tantos, ilustrado com a vontade de beber da tua boca, um verso aceso no meio da cinza de outros versos. Era um poema música, harpa, um poema primeiro abraço; um poema que nem eu sei porque o escrevi: um poema quente e misterioso, de água e de branco, de querer e não querer, de ti e de mim. Começava assim: “Sempre te conheci” e nunca terminava…

A primeira vez que te escrevi um poema foi com o olhar, num dia em que nasceram mundos novos dentro do meu mundo; em que a tua imagem ficou nítida e ampliada como num filme em câmara lenta visto por lente microscópica. E tudo em ti era musicalidade e palavras, tudo em ti era matéria de musa e limpidez. Tudo em ti era esperança e verso , como soneto a sair metricamente emocionado da boca quente e doce de um “dizeur”; tudo em ti eram metáforas improváveis a eclodir de um manuscrito por desvendar.

Houve um poema na primeira vez em que te vi, um poema a anunciar a Primavera, melodias de tempo a fechar um ciclo de nocturnos, a fechar a janela da desesperança e do frio que rompia as madrugadas.

A primeira vez que te escrevi um poema foi com o olhar. Com o meu olhar parado no teu olhar aberto. Escrevi-o e adocei a tua íris, berlinde irisado de castanho e mel.

 

A primeira vez que te escrevi um poema, foi na tua pele com a doçura de um olhar de mel. A primeira vez que escrevi. Na tua pele. Foi com a doçura de um olhar. E nesse dia, respondeste num verso que completou o poema a duas mãos, respondeste que me davas a maresia e os cabelos soltos como borboletas, o escarlate das orquídeas por abrir, respondeste que o meu corpo era o paraíso onde querias ficar até ao fim.

Respondeste tudo isto e no entanto, não escreveste uma única palavra.